quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ainda balança mas não cai

Ainda balança mas não cai

E nesse tempo tão cristão
mais um ano que se vai
então recomeça o calendário

A cueca amarela no armário
ainda balança mas não cai
num lindo saquinho de algodão

Não se fez nem se faz revolução
só ficamos naquele ai, ai, ai
e eu não vou ser retardatário

Sou bom consumista e usuário
no ano que entra ano que sai
vou fazer dupla comemoração.

Wasil Sacharuk
dezembro 2009

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Haragana

Haragana

Ah!, paisana
compreendo tua idolatria
e te perfaz o pensamento
riscar em prosa o rebento
disfarçado em poesia

Tão insana
pagas noites com dias
guacha de discernimento
costuras rimas com tento
e enfeitiças a utopia

Não te enganas
no rumo das cercanias
trocas o chão por cimento
da milonga fazes lamento
com letra xucra arredia

Como prenda haragana
no esteio das regalias
engarupada no vento
num trotezito mui lento
foste encontrar alegria.

Wasil Sacharuk
dezembro 2009

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Churrasco

Churrasco

O chamado para a indiada
Um convite para os hermanos
O calor desprendido da brasa
E os guaipecas na volta da casa

Têm alemão e italianos serranos
E os índios da nossa invernada
E enquanto a carne é assada
Milongueamos com os castelhanos

E na amizade que não se defasa
Nem carancho se esconde na asa
O peão se distrai haragano
E acolhera a toda a tropeirada

E vai a trote na nossa cavalgada
Liberdade de qualquer orelhano
A costela que sempre repassa
Enquanto a paleta ainda assa

Misturada ao calor humano
A fumaça da lenha queimada
Afugenta qualquer desengano
E enaltece essa terra amada.

Wasil Sacharuk
abril 2009

Meus Tons

Meus Tons

Algo em mim tem tom lúgubre
Caverna escura insalubre
Para guardar os meus eus

Também cintilo um tom vivo
Um certo calor radioativo
Retido sob os meus véus

Minha face é tão pálida
De melanina inválida
A clarear os meus céus

Meu sentimento é tão blue
Rústico, ríspido e cru
Matizes frios dos meus breus

Eu me dissolvo nas cores
Máscaras das minhas dores
Em tons que não são meus.

Wasil Sacharuk
abril 2009

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Caleidoscópio



Caleidoscópio



Era uma velha cadeira de encosto azul e, sobre seu eixo, um giro súbito que atrita as rodinhas gastas de plástico com o piso recém encerado e polido. O grito incompreensível de Alex lembra um uivo. É cena comum quando se encontra aquela solução há muito perseguida. Certo tipo de "eureka".

Beatriz observa próxima à porta da cozinha enquanto continua a encerar o chão. Concentra-se na cera e na divagação acerca do excesso de zelo... Obsessão.

Aos arranhões do piso da sala de estudos, a ira de Beatriz cobre com cera vermelha.

- Desculpe amor.

Sem emitir qualquer som a mulher passa com impaciência o dorso da mão sobre a testa suada e puxa os longos cabelos ruivos para trás. Rápida e súbita ergue-se e some adentrando a cozinha.

Beatriz retorna munida de uma nova garrafa de cera líquida e um retalho de pano que outrora era parte de uma camiseta branca. Acocora-se com dificuldade. As pernas doem quando Beatriz empreende um esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

Esparrama o vermelho no chão da sala, cobrindo os arranhões.

E aquele retalho de pano encardido gira formando um caleidoscópio sobre um eixo imaginário. O sulco vermelho penetra pelos sulcos e arranhões do velho piso.

Beatriz, ainda calada, enxuga o suor da testa com a mão. Lenta e hesitante ergue-se e se encaminha para o quarto.

A mulher retorna. Está agora munida de uma longa tira de couro preto. Era a alça arrancada que guardara de sua bolsa de grife.

- Desculpe amor.

Em pé, atrás da velha cadeira de encosto azul, os braços doem quando Beatriz empreende um esforço que agride sua vulnerabilidade atual.

A cena ocorre acompanhada de um novo grito incompreensível, que mais parece um uivo.

Beatriz sentia-se agora com aquela sensação de quem encontra uma solução há muito perseguida. Certo tipo de "eureka".

Esparrama o vermelho no chão da sala encobrindo os arranhões.

Wasil Sacharuk

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Soneto Previdenciário

Soneto Previdenciário

O INSS não cumpre sua parte
só pelas vias do judiciário
faz do enfermo um descarte
espera morrer o beneficiário

O governo garante remédio
e promete a aposentadoria
o vivente morre de tédio
esperando pelo grande dia

Cidadão preso nas malhas
já habituado com as falhas
sem consideração terapêutica

O objetivo previdenciário
entregar o vivente otário
para a indústria farmacêutica

Wasil Sacharuk
novembro 2009

domingo, 15 de novembro de 2009

SIGNIFICADO - acróstico

SIGNIFICADO - acróstico

Signo sinal é
Identificado;
Guia geral é
Normatizado;
Intelectual ou
Coisificado;
Acepcional ou
Dicionarizado;
O significado...

Wasil Sacharuk
novembro 2009

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Diamante




La danza de los amantes (Jackeline Klein Texier)

Quisera eu ser o perigo
ser teu grito, teu poder

quisera eu ser o pecado
ser teu ego, teu querer

quisera eu ser o pedido
ser teu discernimento, teu respeito

quisera eu ser o palhaço
ser teu sorriso, teu defeito

quisera eu ser o pedinte
ser teu ouvinte, teu diamante bruto

quisera ser o instante
quisera ser o rompante
quisera ser eu...
quisera ser tu... novamente amantes.

Dhenova

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Lanterna do Destino

Lanterna do destino

Brilha nos olhos de um menino
bem mais do que vã promessa
a vontade de ser real cidadão
pelas vias da melhor educação

Nas trevas de uma ética avessa
sem o raio de liberdade do hino
sem as letras na luz do destino
até que essa vontade esmoreça

O ronco da fome é a motivação
é bem mais fácil roubar ao irmão
deixar a loucura subir à cabeça
pois o poder só faz o escrutínio

Quiçá um dia o milagre aconteça
e se prevaleça o valor do ensino
com educação todo ser é divino
e cada um a si mesmo conheça.

Wasil Sacharuk
novembro 2009

sábado, 7 de novembro de 2009

Famigerada figura


Famigerada figura

Feito fome
fazia furor febril
face fervente
foi fanático fomentando fúria
foi fervoroso feito fé
foi fumegante feito fumaça
foi flamejante feito fogo
fogo fátuo
foi funesto fato

forçou...
forçou...
felicidade finalmente
fez fogo fraco
faiscou fagulhas feridas

fez fortuna fabulosa
financiou farras
fanfarras
fisgou fêmeas fadadas
famosas financiadas
fantásticas formosas
feito fúteis fadas

faliu fábricas
forjou falácias
falsificou
foi facínora
formou falange

Fez favores
feitiçarias
foi fisgado
fichado

fígado foi furado
faca faiscante
fincado fundo
facada fatal

finalmente
faleceu
fatigado

Foi faceiro
foi feliz
foi fácil
foi fagueiro

foi famigerado fariseu
fiel fanfarrão
fatalmente
fará falta.

Wasil Sacharuk
novembro 2009

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Soneto da Insurreição

Soneto da Insurreição

Armado o complô da poesia
institui beleza profanada
e faz a certeza adulterada
estendido até nascer o dia

Tramado o complô da utopia
destitui a mesa consagrada
gira tonto na encruzilhada
possuído de encanto e magia

Faz-se a luz na conspiração
musa que sabota na redenção
enredada na trama dialética

Une os versos na conjuração
sobre as asas da inspiração
numa interpretação hermética.

Wasil Sacharuk
outubro 2009

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O vermelho aflorou meus desejos

O vermelho aflorou meus desejos

Acordei cedo
não estavas
do lado direito
senti um medo
um aperto no peito
e fui ao banheiro
olhei no espelho
nenhum recado
procurei pelos beijos
encontrei o vermelho
e o vermelho
aflorou meus desejos.

Wasil Sacharuk
outubro 2009

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

SIMILITUDES



Tenho o pé na terra
e os olhos no vento
busco só a resposta
do outro lado da porta
a noite é de tempestade
raios, trovões, ventania
e eu aqui
o pé no chão
e ainda é a mesma
a mesma estrela
que me guia

eu te vi no retrato
um sorriso suave
no olhar, lá no fundo
uma tristeza sem jeito
abafada no tempo
esquecida? não tão cedo
na expressão firme
a responsabilidade
de quem ama
e levanta da cama
mesmo no inverno mais frio
e vai olhar a cria
pede com esperança
pra estrela do norte
desejando sorte
de ter mais um dia


Tenho o pé no chão
e o coração na chuva
sei a proposta
relâmpago, trovão, agonia
o pé na terra
o coração no chão
e a vida por um fio.

Dhenova - 02/03/2009

sábado, 3 de outubro de 2009

Memórias



Memórias

Já fui caça
e pássaro
devassa
e bálsamo
já fui benta
e instável
peçonhenta
tão amável

Já fui Jocasta
e Morgana
muito casta
pouco sana
embaixatriz
e sensata
fui meretriz
e beata

Assassina
e obcena
Messalina
Madalena
Fui a vadia
da realeza
e fui Maria
sem certeza.

Wasil Sacharuk
outubro 2009

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Florida

Florida

Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Nessa linda primavera as flores do campo emprestam novas tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre de um passado generoso. Onde havia a fartura do pasto, agora há apenas flores do campo.

A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.

Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a casinha erguida na depressão da coxilha não resista às prováveis enxurradas.

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-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem, melhor do que tu, e este não me deixará!

Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pelo sono escasso. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para o lugar de onde outrora viera.

-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso simplesmente deixá-la lá.

-Pois volte para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois, e não posso e nem quero dar sustento a uma criança que não é minha.

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Erna, mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano, levando, numa grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Antes de partir, havia dito à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e brevemente deveria voltar para casa. Habituada ao trabalho duro no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e dos dias de frio cortante.

Chico, investido do mesmo propósito de Erna, deixara o lar alguns meses antes e jamais mandara notícias. No rancho deixara todos os seus pertences, como sinal de um retorno sem demora.

-Tenho saudade da minha menina, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim, como sempre envolvida com aquelas florzinhas que costumávamos cultivar juntos.

-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.

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A esperança de Frida supera sua fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que o alto do morro anuncie um retorno. Nos últimos dias, tudo o que faz, além de ocupar a janela, é cuidar com muito carinho das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colhera na primavera passada e replantara num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.

Erna parada na calçada, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo de sua sacola de palha em busca de algo. Encontra o que pretende, mas mantém dentro da sacola. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.

-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!

Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção do quarto número oito. A determinação de Erna é notável e sua mão direita está introduzida na sacola.

Uma nova consulta na notinha de papel e a mão esquerda de Erna ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.

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Debruçada na janela, a menina espera pela tempestade que se aproxima. Avistar o alto do morro agora somente a faz vislumbrar a próxima primavera e a chegada de novas flores, amarelas e brancas, para devolver a vida que se consumiu no seu vasinho.    


 

Wasil Sacharuk

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