Florida
Alguns poucos animais ainda restam no grande prado. Nessa linda primavera as flores do campo emprestam novas tonalidades à vegetação. Mas os novos tempos sequer esboçam a sombra campestre de um passado generoso. Onde havia a fartura do pasto, agora há apenas flores do campo.
A velha e pequenina casa de madeira nativa, rudimentar construção secular, erguida pelo heróico esforço de um único homem, precisa de urgentes reparos. O verão se aproxima e, disseram na televisão, deverá trazer consigo violentas chuvas.
Eis que o rostinho inocente e suave de Frida, debruçada no parapeito da janela frontal, tem vivos olhinhos azuis voltados para o alto do morro. Talvez a casinha erguida na depressão da coxilha não resista às prováveis enxurradas.
----------------------------------
-Acaso um dia partas daqui, mesmo que pretendas voltar, não me encontrarás a tua espera. estejas certo de que terei outro homem, melhor do que tu, e este não me deixará!
Letícia, irredutível e nua em sua cama, esfrega vigorosamente os olhos sensibilizados pelo choro e pelo sono escasso. Há muito teme pelo possível retorno de Chico para o lugar de onde outrora viera.
-Letícia, não quero te perder, mas sabes que preciso voltar para buscar Frida, não posso simplesmente deixá-la lá.
-Pois volte para aquele lugar e jamais tornarás a me ver. Bem sabes que não quero mais ninguém intrometido em nosso amor. Nesse quarto só há espaço para nós dois, e não posso e nem quero dar sustento a uma criança que não é minha.
----------------------------------
Erna, mãe de Frida, há alguns dias partiu para o centro urbano, levando, numa grande sacola feita de palha, seus três vestidos junto a alguns objetos que provavelmente lhe seriam úteis. Antes de partir, havia dito à menina que buscaria o alimento que já ameaçava faltar e brevemente deveria voltar para casa. Habituada ao trabalho duro no campo, a mulher tem braços fortes e traz o semblante marcado pela hostilidade dos dias de sol ardente e dos dias de frio cortante.
Chico, investido do mesmo propósito de Erna, deixara o lar alguns meses antes e jamais mandara notícias. No rancho deixara todos os seus pertences, como sinal de um retorno sem demora.
-Tenho saudade da minha menina, queria que pudesses compreender. Não há sentido em minha vida se ela não estiver próxima a mim, como sempre envolvida com aquelas florzinhas que costumávamos cultivar juntos.
-Pois compreendo Chico, poderás ir quando quiseres, mas procura esquecer que eu existo...Fique por lá cultivando suas florzinhas. Quando saíres daqui, vais te arrepender amargamente.
--------------------------------
A esperança de Frida supera sua fome. Abandonada, aguarda com ansiedade que o alto do morro anuncie um retorno. Nos últimos dias, tudo o que faz, além de ocupar a janela, é cuidar com muito carinho das flores, amarelas e brancas, as quais seu querido pai colhera na primavera passada e replantara num vasinho que mantém ao lado da porta da cozinha.
Erna parada na calçada, curva ligeiramente seu corpo para revirar o conteúdo de sua sacola de palha em busca de algo. Encontra o que pretende, mas mantém dentro da sacola. Compara o número do prédio cinzento que há em frente com a inscrição feita a lápis numa notinha de papel que segura em sua mão.
-1258, quarto 8, Letícia...Deve ser aqui mesmo!
Empurra sem dificuldade a porta de ferro do grande prédio central e sobe as escadas em direção do quarto número oito. A determinação de Erna é notável e sua mão direita está introduzida na sacola.
Uma nova consulta na notinha de papel e a mão esquerda de Erna ergue-se para dar três secas batidas na porta do quarto.
----------------------
Debruçada na janela, a menina espera pela tempestade que se aproxima. Avistar o alto do morro agora somente a faz vislumbrar a próxima primavera e a chegada de novas flores, amarelas e brancas, para devolver a vida que se consumiu no seu vasinho.
Wasil Sacharuk